Governança Corporativa: O que o Vale do Silício ensina às empresas brasileiras?

Autores: Lívia de Carvalho Pineda e Ricardo Sanches Domingues

O recém-publicado Relatório de Governança Corporativa do Vale do Silício 150 de 2025

(SV150), elaborado pela Wilson Sonsini Goodrich & Rosati, oferece um panorama das práticas

das 150 maiores empresas de tecnologia do mundo. Embora o foco do estudo sejam companhias

abertas, os dados revelam um padrão de comportamento que não apenas pode, mas deve ser

importado pelas sociedades limitadas brasileiras que buscam perenidade e valorização de

mercado.

 

O relatório de 2025 destaca uma resiliência notável nas práticas de diversidade e

composição de conselhos, mesmo diante de um cenário regulatório norte-americano mais

restritivo e da revogação de certas normas da Nasdaq. O dado crucial para o empresariado

brasileiro não está na obrigatoriedade, mas na constância: as empresas de melhor performance

financeira (o “Top 50” do ranking) mantêm estruturas de conselho robustas e diversas,

independentemente da pressão regulatória. Ou seja, as empresas aderem a prática porque

funciona.

A Ilusão da “Empresa Pequena Demais”

No Brasil, impera o mito de que a Governança Corporativa é um luxo restrito às S.A.s de

capital aberto.

 

Todavia, a Sociedade Limitada (Ltda), estrutura mais comum no país, frequentemente

sofre da “síndrome do fundador”, onde a confusão entre propriedade e gestão limita o

crescimento e implode sociedades em momentos de sucessão ou crise.

Desse modo, o relatório SV150 aponta que, no epicentro da tecnologia mundial, a

transparência e a estrutura de fiscalização são ativos de valor. Para as empresas limitadas

brasileiras, a aplicação desses conceitos não exige a burocracia de uma companhia listada em

bolsa, mas sim a inteligência de, por exemplo, um Acordo de Sócios bem desenhado e a

institucionalização de órgãos de governança adaptados ao porte do negócio.O Conselho Consultivo como Divisor de Águas

Uma das análises mais ricas que podemos extrair do SV150 para a realidade nacional é

a função do conselheiro. Nesse viés, o relatório indica que, apesar da diminuição na divulgação

pública de métricas de capital humano, a presença de diversidade e independência nos boards

se manteve estável.

 

Para uma empresa familiar ou uma limitada em crescimento, a criação de um Conselho

Consultivo (ou de Administração, dependendo do estágio) é o primeiro passo para a

profissionalização.

 

Assim, diferente do que muitos empresários temem, isso não significa perder o controle.

Pelo contrário, significa qualificar a tomada de decisão.

A inclusão de conselheiros independentes — figuras externas à operação e à família, com

expertise de mercado — traz a isenção necessária para mediar conflitos societários e oxigenar a

estratégia.

 

Nesse ponto, o relatório do Vale do Silício demonstra implicitamente que a endogenia é

um risco que as maiores empresas do mundo evitam a todo custo. Por que uma empresa

brasileira de médio porte deveria correr esse risco?

Governança como Ferramenta de Valuation

Outro ponto de destaque no relatório de 2025 é a correlação entre as práticas de

remuneração executiva (pay-for-performance) e os resultados das empresas do Top 50. Nas

Limitadas, a falta de clareza entre o que é pró-labore (salário pelo trabalho) e o que é distribuição

de lucros (remuneração do capital) é uma das maiores fontes de passivo tributário e desavenças

entre sócios.

 

Portanto, implementar regras claras de governança, inspiradas nas melhores práticas

globais, prepara a empresa para eventos de liquidez. Seja para uma futura venda, para a entrada

de um fundo de investimento ou para uma sucessão familiar tranquila, a “casa arrumada” vale

mais. Isso porque, de modo geral, investidores não compram apenas fluxo de caixa; compram a

certeza de que o negócio não depende exclusivamente do humor ou da saúde de seu fundador.

ConclusãoO Relatório SV150 de 2025 nos ensina que a governança não é um modismo, mas um

mecanismo de sobrevivência e eficiência.

 

A legislação brasileira, especialmente o Código Civil, oferece flexibilidade suficiente para

que escritórios de advocacia desenhem estruturas de governança sob medida para Limitadas de

todos os portes. Criar conselhos, trazer membros independentes e formalizar políticas de gestão

não é burocratizar, mas sim garantir que o legado da empresa sobreviva aos seus criadores.

Sendo assim, a governança é, em última análise, a tecnologia mais acessível e vital que

podemos importar do Vale do Silício hoje.

 

REFERÊNCIAS:

WILSON SONSINI GOODRICH & ROSATI. 2025 Silicon Valley 150 Corporate Governance Report.

Harvard Law School Forum on Corporate Governance, 6 jan. 2026. Disponível em:

https://corpgov.law.harvard.edu/2026/01/06/2025-silicon-valley-150-corporate-governance-

report/. Acesso em: 04 fev. 2026

 

LÍVIA DE CARVALHO PINEDA
RICARDO SANCHES DOMINGUES

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